terça-feira, 14 de Abril de 2009

Contratempos

Vamos todos fugir da pasmaceira!
Rumo ao nobre Porto, sem mais um fado!
Vagueio pela fragrante Ribeira
E cobiço, com fervor, um gelado.

A amizade tem elos tipo massas,
Danificam-se sensivelmente lá pelas duas.
Os agentes erosivos são farsas,
Corrupção, traição e chocolates de baunilha.

Para a Cidade Invicta eu segui,
Desfrutando da paisagem humana.
Rapidamente me regenerei,

Com um refresco que eu digeri.
Escapulindo-me da cena urbana,
Os meus problemas esqueci.

Memórias de Uma Donzela de El-Rei

Sou uma das donzelas de D. Fernando

E por isso choro em pranto,

A face de meu amor cavalgando

Emociona e com vinho me vou tocando.


E o rei é tão cego e cortês

Que já não sei qual foi o mês

Em que comecei este amor abrigado

Dos demais em cerrado nevoeiro.


O meu marido o odeio

Por ser o maior tratante do reino;

É tão rude quanto é feio

E espanca-me noite e dia sem pejo.


Tão desesperada estive para me matar

Quando gentil donzel me abordou,

Perto da fonte de que me ia atirar

Quando ele um fado começara a cantar.


Envolta em cetim vermelho,

Rendi-me perante a melodia.

Braços finos de nobre cavalheiro

Fiquei junto dele o dia inteiro.


Sua sensualidade e vestuário acabado

Não deixava donzela indiferente.

Perguntavam-se quem o desposaria

Sem saber que me estava destinado.


Louro e de porte altivo,

Com lança e respondendo afirmativo,

Exprimia-se sempre positivo, amigo

Da fanfarra, comida e boa dança.


Sabia truques de etiqueta

E safava-se bem na justa;

Os adversário tombavam em harpejo,

Era o objecto do meu desejo.


Vestia túnica de negrume

E, por cima, armadura de couro reforçado.

Alimentava-se de vitelo, porco, legume

E tudo isto o deixava anafado.


Contudo – Quantas lágrimas chorei!

A relação fora descoberta.

Muitas lágrimas derramei

Quando suas feridas mortais limpei.


Por ser de altas linhagens

É que Sua Alteza me poupou;

Penso ter sido as minhas roupagens

O que mais o ludibriou.


Nunca mais serei feliz em anos de vida

Com tal desgosto que surgira

Por tal relação fogosa e querida.


Ainda hoje, em sonhos, o observo:

Derrota o mouro que a vida lhe retirara.

No meu coração está a memória conservada.

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Ai e tal...

Ai e tal... isto anda fraco ultimamente; ando a modos que sem vontade para isto continuar. Cheguei a uma conclusão deveras filosófica.: Os blogs são porreiros para tempo de férias! Agora, quando se está todos os dias com o pessoal que vivem para o blog, deixa de fazer sentido "postar" aqui mais cenas...
Ainda assim, pode ser que um dia destes me dê na veneta e me lembre de vir cá dar um saltinho. Coisas da vida. A todos os desconhecidos que visualizaram a minha página, um grande "shake-hands" convosco. Espero que tenham gostado...Até ao regresso do Fulaninho...

quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Charlatão

Noite já alta,
Saiu para o engate,
Com profusão de perfume
Na zona do jugular.

Furando pelas gajas,
Contemplou-as com furor;
Uma ou outra cabeça voltava-se
À passagem do horror.

Mas, de súbito, foi descoberto:
A cópia barata de Channel
Não atraía as femmes presentes,
que o miravam de soslaio,
Olhar frio, impudente.

Não logrando resultado,
Encaminhou-se para casa,
Cogitando fantasias carnais
Com a de maior preferência.

Mas - Desgraça!,
O falso fora roubado.
Um ladino palmou a casa
E, em jeito de evasão, o seu bolso.

Que ironia do destino!
Só o perfume restara,
O infame que não lhe
Concedera fortuna!

quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Uma questão de conserva

Um belo dia,
O frigorífico
Do Olimpo
Avariou.

Como os técnicos da Grundig
'Tavam de férias,
Não havia remédio senão
Comer os produtos armazenados.

Zeus bebeu
Néctar podre
E os testículos
Operaram mal.

Quando se deslocou ao leito divino
Para fertilizar a Hera,
Os espermatozóides conceberam
Hefesto, o deus feio.

Sendo deficiente,
Os pais lançaram-no
Do Olimpo;
Mas safou-se.

Decidiu vingar-se, já crescido,
Construindo uma cadeira de ouro,
Com base num modelo do Ikea.
A mãe adorou, sentou-se e presa ficou.

Afrodite, a bela,
Fora o resgate.
Odiava o piroso,
Mas tinha de ser.

Estava a ver a novela das dez
No aconchego da vivenda
Quando Ares irrompeu,

Buscando imediato prazer carnal.

Foram capturados
Pelo marido
Desconfiado
e levados
Ao Tribunal dos Deuses.

Muito depois, o tribunal abriu
E o julgamento iniciou.
Sendo o caso tão insignificante,
O tribunal
encerrou.

Uma "queda de um anjo" inverso,
Afrodite fugiu com Ares;
Hefesto contentava-se com
Fiel ou Infiel, na ausência de femme.

E o Olimpo voltara ao normal,
Pois comprou-se um Whirlpool
Com dinheiro que Hermes
Havia ajuntado entregando cartas.

Laurinda

As galinhas cacarejavam
Enquanto a velha se lavava
Na tina de madeira.

De súbito, Vento XVI irrompeu
Pelo pequeno pátio e focou
Sua atençao naquela nudez.

Depois da noite prolongada,
Ele rumou para outros lados,
Perfurando toda a oposição.

E a velha voltou para a tina,
Refeita das necessidades,
Saudosa, adormecida.

terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Ludovina

Observou o Ele
Que a contemplava, apático.
E, sob a luz alumiante
da Lua, a rapariga gritou,
Incapaz de suster a luta,
o conflito entre o Si e o Eu!

Agoniada, tombou sobre o chão,
Contorcendo-se espasmodicamente,
epilepticamente electrificada,
Enquanto a Igreja de Lamego fazia
Soar as agoniantes badaladas da
Extenuante meia-noite!

Já não havia tretas de Super-Homem,
Como lera em Nietzsche;
Os dois estavam a matá-la,
A corrompê-la,
A sangrarem-na,
A fazerem-na vir-se!

Num colossal orgasmo,
Ludovina morreu abandonada,
Assassinada pela loucura megalomaníaca!

Mortificada,
Delapidada,
Virgem!

Renegada para a vala comum,
Ludovina, a pobre de alma
Que
suspirava pelo Eu e o Tu.

domingo, 3 de Agosto de 2008

Resposta ao golpe desferido no "Anti-Garretismo"

Ora bem, o senhor Benjamim realizou um counter-attack ao meu strike ao Shô Garret. Embora pasmado com o senhor, vou apresentar-lhe os factos que julgo, pelo menos, ter observado em alguns livrecos. Porventura, talvez tenha sido enganado por algum informador da treta que por aí ande, ou então a minha mente, devido ao facto de não apreciar o senhor em causa, tenha exacerbado ao extremo as minhas críticas.
Tentando bater os seus pontos, embora sem (penso eu de que) sucesso:

1- No meu texto, não critico o costume social de possuir várias amantes (aliás, penso até ser bastante saudável para uma vida masculina). Quantas gajas e ao mesmo tempo eles tiveram não me interessa minimamente. Apenas mencionei que penso que o Almeida deixou subir isso à cabeça, para se pôr todo convencidão nas suas obras.

2- Se o Almeida não tivesse introduzido o Romantismo em Portugal, julgo que o Alexandre se teria tornado no veículo que o faria, embora esta é uma questão de "e se"s, pelo que eu fico a perder. Há coisa de 5 horas não sabia, mas Herculano possuía um grande conhecimento da literatura alemã, pelo que o movimento "Sturm und Drung" não lhe passaria despercebido, tendo assim acesso ao romantismo. Garret pode, desta forma, não ter influenciado Herculano.

3- Pah, nesta questão, vou-te responder com o meu absurdo completo, uma vez que penso que vou perder a batalha deste terceiro ponto: Se ele falava muito e fazia pouco, era um gajo muito fixe, dado que Kant afirmava que "o que conta é a intenção". AHAH.
Bem, após esta pequena senilidade, vou afirmar que, no meu texto original, apenas referi o seguinte:"Um, historiador inconformado com a política portuguesa"; não teci críticas a qualquer uma das inclinações políticas dos autores e nem afirmei as obras do mesmo tópico de ambos. Todavia, devo afirmar que concordo no facto de Garret ter ajudado bastante o sector da educação e, de uma forma geral, o país.
Ainda assim, Herculano só não prosseguiu as suas compilações históricas devido a isto, que irei transcrever, da autoria de... pá, não sei de quem, mas está aqui na biografia do autor, no meu "Lendas e Narrativas": " Na realidade, a polémica levantada pelos meios clericais relativamente à omissão, no primeiro volume da História de Portugal, do «Milagre de Ourique» atingira o auge em 1850. Atacado na imprensa e inclusive por pregadores no púlpito, Herculano interrompe a História de Portugal para publicar a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, onde Herculano verbera a política de intolerância religiosa."
Portanto, podemos observar que ele levou nos cornos pelo público e clero devido a um factor religioso da treta, parando de escrever a sua maior cena. Desta maneira, ficou relegado para um canto da treta. Mas concordo que Garret teve maior importância a nível da nação.

4- Anti-Garretismo não é Anti-Romantismo; eu desprezo a obra literária do Almeida (tirando as peças de teatro), mas não critico o Camilo e o Herculano, os outros dois bastiões do Romantismo em Portugal (aliás, adoro os dois!). Eu apenas relego para um corner da minha estante essa pulga incongruente que é o Almeida. Ainda que não fosse ele o introdutor, o movimento acabaria por entrar em Portugal à mesma, pela mão de outro autor. Eu apenas foco o escritor em questão, no que toca ás minhas críticas.
Devo dizer-te que, embora a minha inspiração supostamente oriunde dessa cadeia natural, não tenha lido quase nada sobre esses autores (como tu bem sabes, apenas o pequeno livro da Adília Lopes). Os meus escritos são relativamente originais no que toca a esse non-sense; saem naturalmente da minha pessoa, não me baseio nesses senhores que trazes sempre no bolso (referência ao filme "O Padrinho": Those politicians you carry in your pocket").

5(Corresponde ao penúltimo parágrafo) - Tens razão em que o ego melhora a obra literária, mas não tenho (e acho que não podes ter) certezas no que toca ao ego de Herculano.
Dado que me é conveniente, contesto mais uma vez as suas afirmações de que "a modéstia é falsa"; pois sim, pode ser falsa, mas tem como objectivo a boa-educação (ainda que não seja uma Paula Bobone, essa está no último capítulo da História do Blogue"). Mas sim, Herculano tinha a mania de que era Gentleman (tal como eu tenho) e era tímido.

Termino assim a defesa das minhas convicções. Espero que medite no que escrevi e procure entender exactamente o que não aprecio no Almeida, pois levou uma vida do caraças (uma autêntica ramboiada), mas não me apelam os escritos.

A todos os outros, tiro-vos o chapéu por terem lido esta malucada até ao fim. Salute!