Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

A História de Abdullah/ Capítulo 1

Abdullah atravessava a fresca noite de Jerusalém. Ajustou o capuz de linho da sua túnica e seguiu caminho, ignorando os fracos vultos que passavam perto dele. Em cima, a lua cheia exalava presságios sinistros; apressou o passo.
Por fim, encontrara a sua casa. Mal havia transposto o limiar da entrada quando se apercebeu de que alguém a invadira: o seu tapete estava entortado. Pairava no ar, àquela hora dúbia, os resquícios do pão do dia anterior. Lentamente, retirou o punhal e embrenhou-se na escuridão. Distinguiu um ruído, muito perto de si. Saltou e prendeu o intruso, que se tratava de um pequeno rapaz.
Alertado pelo fraco brilho da arma, a criança tremia. Pediu desculpas pela transgressão cometida; precisava de alguma coisa no estômago e, dado que estragara um dos vasos mais valiosos do seu pai, proeminente oleiro, ficou sem o jantar.
- Não foi lá muito simpático o teu pai - A voz sonora e algo grave de Abdullah reverberou pela habitação - Privar uma criança de uma refeição é um crime. Podes levar isto - recolheu a arma e, respirando fundo, ofereceu-lhe dois pequenos e inocentes pães.
- Muito obrigado, meu caro senhor, pela sua gentileza. Chamo-me Mohammed. Posso ir agora? - À luz da vela que acabava de acender, Abdullah pôde detectar receio e gratidão no olhar do pequeno.
- Podes, mas não tornes a vir cá. Adeus! - E, muito silenciosamente, fechou a porta.
Abdullah era um assassino. Gozava de uma certa reputação na Casa dos Mercenários, onde era respeitado. Era lá que lhe eram apresentados os clientes, geralmente homens sebosos, tímidos e ricos, que precisavam sempre de eliminar alguém. Ágil como um gato, forte, duro e astuto, possuía todas as qualidades necessárias ao trabalho.
O seu rosto continha belas feições árabes, sem barba e uns bonitos olhos castanhos.
Imaginou o jovem a galgar a viela, cuja negrura era apenas quebrada pelo Sol nocturno, lembrou-se da sua infância.
Passeava alegremente pelas ruas com os seus amigos, jogando alegremente à apanhada. Despedira-se alegremente. O choque, ao encontrar os seus pais tombados no chão, os seus pescoços cortados por fina espada. As roupas, tingidas de sangue. Apenas um papel, com um símbolo semelhante a um delgado S, permanecia no chão.
Desde esse dia, procurava vingança, buscando o criminoso incógnito. O seu tio criou-o, castigando-o duramente com a chibata. Um bêbado inveterado, Ahmed forçava-o a manufacturar sandálias de couro, que vendia a preços avultados; os lucros revertiam apenas para ele.
Farto daquela vivência tirânica, Abdullah utilizara uma faca para cortar o pescoço do seu preceptor. A partir daí, a sua vida fora passada nas ruas, enganando habilmente os comerciantes fracos. Extorquia aos mais pequenos e fazia desaperecer os seus opositores.
No dia em que comemorava dezasseis anos, o nosso ladrãozeco fora apanhado por um rufia; o homem anunciou que lhe pouparia a vida, caso estivesse o nosso personagem disposto a realizar uma série de "tarefas" para ele.
O sujeito era conhecido nos bairros por Al-Muulin, ou seja, "O triste"; com os seus 40 e poucos anos, sentia-se desiludido com o rumo que a sua vida levara. Contudo, prosseguia na sua peregrinação terrena, introduzinho, aqueles com talento na já anunciada Casa dos Mercenários. Em troca desse favor, recebia sempre uma bela maquia.
Parceiros em muitos dos empreendedimentos, Al-Muulin e Abdullah não se podiam queixar. Gozavam os prazeres da vida: A fome e a sede não perfuravam as muralhas das suas casas, feitas de delicado pão e saudoso vinho. Possuíam muito tempo livre e prazer sexual não faltava: umas moedas à senhora adequada e toda uma noite (ou tarde!) de delícias se abria à disposição dos intrépidos.
Abdullah voltou ao presente. As despesas do dia anterior deixaram-lhe uns vinte cruzados. Decidiu procurar trabalho assim que o dia amanhecesse. Dirigiu-se à sua mesa de madeira barata, onde se encontrava uma tigela de barro com algumas frutas. Cortou uma laranja e digeriu-a suavemente. Talvez encontrasse Al-Muulin no dia seguinte.
Colocando as cascas por trás da porta da habitação, deitou-se na enxerga de palha e adormeceu, ignorando o silêncio que se fazia sentir na Cidade de Deus.

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